Quem é a P.I.G (Partido da Imprensa Golpista) parte 2

Partido da Imprensa Golpista (comumente abreviado para PIG ou PiG)


O portal de orientação de esquerda Brasil de Fato realizou um levantamento sobre o comportamento dos três jornais de maior circulação no Brasil ante a campanha de Dilma Rousseff, candidata do PT para a Presidência da República em 2010. O estudo foi feito a partir das manchetes de primeira página publicadas em 30 dias que antecederam a votação de primeiro turno, (entre os dias 28 de agosto e 27 de setembro). Constatou-se que a maior parte dos temas abordados foram ligados às eleições, com a grande maioria das manchetes adotando um enfoque desfavorável para a candidata do PT.




No período analisado, O Globo não teria publicado nenhuma manchete positiva à candidata do PT, contra 21 manchetes negativas. Foram ainda três neutras e seis tratando de outros assuntos, como Economia ou Internacional. Já a Folha de S. Paulo teria veiculado duas manchetes positivas à campanha petista ("Lula vai à TV e afirma que Serra partiu para baixaria", no dia 8, e "Desemprego é o menor, e renda é a maior em 8 anos", no dia 24). No entanto, foram dezoito manchetes negativas, além de uma neutra e nove sobre temas diversos. O Estado de S. Paulo, (único dos três a declarar, em editorial, apoio ao candidato José Serra), teria sido o campeão em negativas com relação a Dilma: foram 22 capas negativas em apenas um mês. O Estado trouxe uma manchete positiva à petista ("Inquérito da PF esvazia tese de crime político na receita", no dia 16), três neutras e quatro abordando outros assuntos.

Após relutar em aceitar a ideia de termos como o "PIG", o jornalista Luís Nassif hoje defende que parte da mídia brasileira vem atuando, sim, de forma a alcançar o protagonismo político-partidário. Nassif enxerga essa atuação política mais incisiva como parte de uma tendência mundial, iniciada por Rupert Murdoch, fundador da emissora americana FOX News. O jornalista afirma que, no Brasil, esse movimento se manifestou num pacto entre quatro grandes grupos de mídia para fazer oposição ao governo trabalhista do PT. Para Nassif, são esses quatro conglomerados - Globo, Abril, Estadão e Folha – que vêm comandando a oposição política brasileira de 2005 até hoje.

Ato "Em defesa da democracia e contra o golpismo midiático"

Em 23 de setembro de 2010 representantes de partidos políticos e entidades de esquerda fizeram, em São Paulo, um ato intitulado "Em defesa da democracia e contra o golpismo midiático". Nessa ocasião, o presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, Altamiro Borges, leu o documento "Pela ampla liberdade de expressão", em que defende a mídia alternativa e propõe solicitar a abertura dos contratos e contas de publicidade de grandes empresas de comunicação.

O presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo e secretário-geral da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), José Augusto Camargo, também leu uma nota, intitulada "Em defesa dos jornalistas, da ética e do direito à informação".

Distorcer, selecionar, divulgar opiniões como se fossem fatos não é exercer o jornalismo, mas, sim, manipular o noticiário cotidiano segundo interesses outros que não os de informar com veracidade. Se esses recursos são usados para influenciar ou determinar o resultado de uma eleição configura-se golpe com o objetivo de interferir na vontade popular. Não se trata aqui do uso da força, mas sim de técnicas de manipulação da opinião pública. Neste contexto, o uso do conceito “golpe midiático” é perfeitamente compreensível.
—José Augusto Camargo.

Composição

Conforme a opinião daqueles que se utilizam do termo, seriam três as famílias que manipulariam a opinião pública, dominariam e condicionariam o noticiário de todo o país, através dos seus órgãos de imprensa: os Marinho (Organizações Globo), os Frias (Grupo Folha) e os Mesquita (Grupo Estado). Estas três famílias controlam alguns dos principais orgãos da impressa no Brasil, tais como os jornais O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, e o portal UOL. Também são incluídos os Civita (Grupo Abril), que publicam a revista Veja. Paulo Henrique Amorim também limitou a esses quatro grupos a composição do "PIG" em entrevista à revista Imprensa em junho de 2011.

Em artigo de março de 2010, o jornalista Gilberto Maringoni, colaborador da agência de esquerda Carta Maior, sugeriu que o Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, promovido pelo Instituto Millenium, entidade brasileira que afirma defender o "Estado de Direito, liberdades individuais, responsabilidade individual, meritocracia, propriedade privada" como valores, reuniria a imprensa golpista.

A internet e o PIG

Para o jornalista e escritor Fernando Soares Campos, "sem a internet, dificilmente Lula teria sido eleito; se fosse, não assumiria; se assumisse, teria sido golpeado com muita facilidade. O PIG é forte, é Golias, mas a internet [está] assim de Davi!". Para Campos, a existência da Internet interferiria com o monopólio da informação por parte dos grandes grupos midiáticos, e essa interferência dificultaria os golpes.

Segundo o Observatório da Imprensa, a Internet teria criado dificuldades para a grande mídia brasileira dar o suposto golpe no Governo Lula[carece de fontes], como ocorreu com Jango (presidente da República entre 1961 e 1964, quando começou a ditadura militar). Na atualidade, com múltiplos meios de comunicação — muitos baseados em livre troca de informações entre as pessoas — controle da informação teria se tornado mais complexo, devido à grande facilidade de se buscar informações de fontes diversas sobre o assunto.

O jornalista Luís Nassif afirma que existe um pacto entre quatro grandes grupos de mídia – Globo, Abril, Estadão e Folha – que tem comandado a oposição política brasileira desde 2005. Ele defende que o reverso desse movimento é o desabrochar da sociedade civil na Internet. Para Nassif, estruturas como blogs, ONGs, OSCIPs, sindicatos e movimentos sociais, estão entrando na rede e passando a disputar, com os grandes grupos midiáticos, pela audiência e pelas opiniões políticas.

Episódios

Os que apóiam o termo "mídia golpista" costumam relatar certos eventos que, segundo eles, confirmariam a forma tendenciosa com que os meios de comunicação brasileiros tratam os governos mais à esquerda. Seguem alguns desses exemplos.

Eleições de 1989

A Rede Globo é acusada de ter ajudado a eleger o candidato Fernando Collor de Mello nas eleições de 1989, especialmente através da manipulação de trechos do último debate de Collor contra Lula. A edição polêmica foi apresentada no Jornal Nacional, na véspera da votação e num momento em que não poderia haver mais propaganda partidária na TV. Em 2009, Fernando Collor admitiu que foi favorecido, pela Globo, na disputa.

Eleições de 2006

Houve várias críticas à forma como veículos da imprensa fizeram a cobertura das eleições.

Luiz Carlos Azenha, que então trabalhava na Globo e era o repórter destacado para cobrir a campanha presidencial do candidato tucano Geraldo Alckmin, confirma que havia intenção de prejudicar o PT na cobertura. Nesse contexto, Azenha relata:

Ouvi, na redação de São Paulo, diretamente do então editor de economia do Jornal Nacional, Marco Aurélio Mello, que tinha sido determinado desde o Rio que as reportagens de economia deveriam ser "esquecidas" – tirar o pé, foi a frase — porque supostamente poderiam beneficiar a reeleição de Lula.

Entre outros acontecimentos, Azenha ainda conta que teve uma reportagem potencialmente danosa para o então candidato a governador de São Paulo, José Serra, censurada pela Globo. "A reportagem dava conta de que Serra, enquanto ministro, tinha autorizado a maior parte das doações irregulares de ambulâncias a prefeituras", afirma.

O evento mais comentado pelos críticos foi quando, na véspera da votação do primeiro turno, a Rede Globo e certos jornais impressos, como a Folha, o Estado, e O Globo deram enorme destaque à imagem do dinheiro que havia sido apreendido no contexto do Escândalo do Dossiê.

Hoje, é sabido que o delegado da PF que havia comandado a operação convidou quatro jornalistas para uma conversa reservada e repassou os CDs com as fotos. A conversa foi inteiramente gravada e nela se pode ouvir os apelos do delegado para que as imagens fossem parar na edição do Jornal Nacional do mesmo dia, 29 de setembro.

Argumenta-se que o uso político das fotos ficou ainda mais evidente pelo fato de todas as matérias omitirem a conversa com o delegado, (em que ele condiciona a divulgação das fotos para atingir a candidatura petista). Os jornais também difundiram a informação falsa de que as fotos teriam sido roubadas, quando, na verdade, tinham sido repassadas a eles pelo delegado.

Destroços do Voo Gol 1907 - o Jornal Nacional não informou sobre a tragédia, mas focou toda a sua edição no "Escândalo do Dossiê".


No caso da Rede Globo, ressalta-se que, na mesma noite em que exibiu as fotos (sem a contextualização de como foram obtidas), o Jornal Nacional se absteve de informar sobre a tragédia do Voo Gol 1907, em que morreram 154 passageiros no choque aéreo com o jato executivo Legacy, comandado por dois pilotos norte-americanos. Assim, ao mesmo tempo em que a notícia do desastre já repercutia no mundo inteiro, a edição ao vivo do jornal se dedicava somente a dar destaque à divulgação do escândalo político.

Nenhum comentário:

Postar um comentário